sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Abismo - Fernando Pessoa



Olho o Tejo, e de tal arte Que me esquece olhar olhando, E 

súbito isto me bate De encontro ao devaneando — O que é 

sério, e correr? O que é está-lo eu a ver? Sinto de repente 

pouco, Vácuo, o momento, o lugar. Tudo de repente é oco 

— Mesmo o meu estar a pensar. Tudo — eu e o mundo em

 redor — Fica mais que exterior. Perde tudo o ser, ficar, E 

do pensar se me some. Fico sem poder ligar Ser, ideia, alma

 de nome A mim, à terra e aos céus... E súbito encontro

 Deus.


Fernando Pessoa

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